31 de mai de 2011

Ironman Brasil 2011 por: Robson Fernando de Oliveira.




Relatos de uma simples prova: Ironman


Há dois meses atrás, decidi não largar no Iron. Não estava treinando e não estava "no clima".
Estava triste com esta decisão e, acima de tudo, não acreditando que pudesse desistir de MIM... Já que dizem que o Ironman é uma prova em que o atleta desafia a si mesmo, isto vinha me cutucando.

Pois bem, há cerca de um mês decidi largar, já treinando!!!

Bom, com muito menos treino do que deveria ter e fora dos meus padrões de estrutura, tinha a certeza de que deveria fazer uma prova inteligente, consciente e resgatar todas as seis edições anteriores, mentalizando etapa por etapa, minuto por minuto, ou melhor km por km... heheheh... o Iron é uma prova realmente diferenciada, em que anos depois, é possível nos lembrarmos de todos os momentos em todas as edições... não é à toa que dizem que "ser Ironman é estilo de vida" e que muitos (inclusive eu) tatuam esta conquista.
 
Então... vamos ao roteiro:

Durante a semana, muitos eventos paralelos ocorrem, muitas mensagens chegam, muitos olhares e cumprimentos nos miram e recebemos muita energia nos empurrando para a linha de largada e nos fortificando até a linha de chegada. Isto tudo transforma o astral e nos coloca dentro da prova. (aliás, se vale uma dica: sempre participe das etapas que precedem seus eventos, isto lhe transportará para um mundo exclusivo pertencente a quem deste fará parte - você)

Quinta-feira no treino de natação até as bóias, notei que a natação seria tranquila.

Sexta-feira no simpósio, notei que nada de muito diferente havia na prova. Muito bom já conhecer o que lhe aguarda. Porém, pela terceira vez em uma semana furei meu pneu (novinho em folha!), o que já te deixa na pilha... tudo resolvido.

Sábado no bike check-in o astral já era 100% Ironman, então, para não largar só se o despertador não me deixasse ou se o Osama ressuscitasse e virasse bonzinho...

Domingo:

04:00 - acordar no dia Iron é o mesmo que acordar no meio de uma bateria de escola de samba, o cara pula da cama e já fica com o coração na boca. Daí até a largada, olha, o coração tem que ser forte!

...até às 06:45 ajustes finais, sorriso meio amarelo, suor e mão congelando, vida de "rei" de tempos em tempos, certezas e incertezas.

06:45 - 07:00 posso garantir com todas as minhas forças que estes 15 minutos não tem somente 15 minutos. É sério... dentro do curral de largada o cara olha pro lado e vê gente chorando, rezando, tremendo, rindo, falando, alongando, concentrando, todos nervosos e agindo conforme podem... sou do tipo que fica ali parado, cabeça baixa, quieto, pouco me mexo, alongo para disfarçar e procuro não observar os outros, mas é difícil...

07:00 - neste ano a organização não fez a contagem regressiva, sorte minha, porque se os últimos 15min não passam, imaginem os 10-9-8-7-6-5-4-3-2-1-Começou!!! Até pra digitar demora... hehehehehe

Primeira bóia - os 960m mar adentro em direção à primeira bóia são duros, frios e longos. É nesta reta (nem sempre tão reta) que precisamos alinhar o coração emoção e o coração circulação, a respiração nervosa e a respiração da braçada, nosso espaço no mundo e na água, secar os olhos cheios de água salgada do mar e de lágrimas, e ainda por cima, mirar e cruzar esta bendita bóia... para mim, cruzar a primeira bóia é significado de que a natação posso cumprir... hehehe...

Segunda volta da natação - acho que de toda a prova, esta foi a minha melhor etapa, nadei bem e forte, apesar da fortíssima correnteza e de ter engolido alguma coisa no meio do caminho... saí da água me sentindo muito bem!

Transição para a bike - por cerca de 10min é hora de preparar a cabeça, a buzanfa, as pernas e a vontade para encarar os 180km.

Primeira volta da bike - parecia que estava flutuando no asfalto, sem fazer muita força segui num ritmo muito bom, boa média (cerca de 33,5km/h), mas não consegui me alimentar direito pois fui tomar um pouco de gatorade e "tudo voltou" (e para isto acontecer é raro, muitíssimo raro). As almôndegas da minha mãe, o purê de batata da Mary e os suplementos fizeram sua parte... Avistei o Wanderson na via expressa sul e notei que estava o alcançando na bike, algo surpreendente para mim. Acabei a primeira volta feliz!

Segunda volta da bike - aí sim... o bixo pegou! Ou melhor, o vento Sul fortíssimo, vindo dos infernos, pegou... caramba o que era aquilo?!? Confesso que antes de cruzar o pedágio em direção ao centro pensei em dar meia volta e desistir. Aí está o grande desafio para todos que completam esta prova: estar preparado para os muitos momentos em que seu corpo ou sua mente ou sua alma (ou todos juntos!) tentam lhe vencer e convencer a parar. Mais cedo ou mais tarde, esta hora chegará durante a prova, compete a nós batermos de frente! Fazendo muita força, muita força mesmo, cumpri a segunda volta... doendo tudo, muito!!! Quando estava saindo da via expressa sul e salvo do vento FDP, avistei o Escobar que estava prestes a encará-lo de frente e pensei: boa sorte e força, meu Brô, pois tu tá fudido nos próximos 30-40km... hehehehe... Para termos noção do vento, na descida do morro vindo do Jardim da Paz, sem pedalar na primeira volta meu Garmin marcou 69km/h e na segunda, pedalando marcou 45km/h... acho que a média nesta etapa foi de aaaaaaarrrrrrrgggggghhhhhhh 10km/h e olhe lá!!! hehehehehehehe...

Transição para a corrida - pela primeira vez, experimentei sentar no chão e massagear as coxas, pois estavam realmente latejando e travadas. Senti dificuldades até para descer da bike.

Corrida volta longa 21km - como havia dito, larguei para fazer uma prova inteligente e poder finalizar. Pois bem, corri num ritmo bem abaixo do que poderia, justamente para seguir adiante. Encaixei +/-06:20 até o primeiro morro em Canajurê. No meio dos morros fica a casa da família do Guga (meu cunhado) e eles estavam lá com uma faixa e vestidos com roupas de ginástica, tipo ciclistas gayúchos-machos-tuttifruttis. Demaissss!!!! hehehehehe... (quando pegar as fotos, posto aqui)... Todos os corredores que estavam por perto de mim vieram me cumprimentar e agradecer pelo momento (do tipo este astral vai me recompor ou me ajudar... foi demais mesmo. Eles não têm noção do quanto ajudaram a mim e muitos outros). Já na volta, na descida dos morros tinha uma família com uma sonzeira na garagem (era uma festa mesmo) e um doido com uma vara de pescar fingindo fisgar quem estava subindo... Demaisssss (pena que nesta hora eu estava descendo e não fui "ajudado" heheheheh). A única coisa estranha e negativa que me ocorreu foi "botar pra fora" novamente quando bebi gatorade e num outro momento quando bebi pepsi (ou seja, não pode ser!). Mas tudo certo... Pra fechar o astral que foi esta volta, ao entrar na Búzios encontrei o Escobar correndo e aquele abraço (Tchêêê!!!) foi do tipo: força e parabéns, cara!!! Caminhando bem pouco e correndo numa boa, cumpri e coloquei no braço a pulseira branca!

Primeira volta curta 10,5km - esta foi, pra variar, a maior de todas as torturas por vários motivos: você nem está acabando e nem está no início, você não aguenta mais suplementos e já conhece todos os staffs e o que nos ofertam (heheheh), suas pernas já estão ao mesmo tempo duras e moles e desobedientes. Caminhei demais nesta etapa (cerca de uns 3-4km) e quando corri, foi dentro do ritmo a que me propus. Demorei, mas coloquei a pulseira laranja no braço e fui pros últimos km's.

Volta final 10,5km - bom, esta é a única etapa em que consigo sorrir numa boa com expressões do tipo "falta pouco" "tá quase lá" "você consegue" "tá fácil"... Sofri, mas cheguei na Búzios pros últimos 2,5km's!!!

Na reta final, é incrível o que acontece conosco, demais mesmo... passam as dores fortes, o coração volta a disparar, os olhos se recheiam de água salgada novamente, as pernas voltam a funcionar, o sorriso volta a ser de criança, as vozes viram vento a favor e o último km NÃO tem 1.000m (com certeza deve ter o triplo, pois não acaba nunca!!!). A Maristela veio me pescar, já que o tiozinho lá do morro não o fez, e na entrada do funil me aguardavam.

De mãos dadas, Robson+Maria+Pai+Mãe, nos tornamos Ironman. Foram 13:25:10 de um dia longo para curtir intermináveis e surpreendentes segundos que compõem a travessia da linha de chegada. Vitória!

Vou falar uma coisa... não há nada melhor do que ver aquelas luzes e escutar o som daquele tablado na chegada e sentir uma sensação de vitória... e não é uma vitória contra algo, mas SIM, a favor de si mesmo.

Alguns choram, outros dançam, outros sorriem, outros apagam, outros fazem malabarismo... todos vibram e distribuem tudo do bom e do melhor de si!!!

O Wanderson detonou e já estava há umas 2 horas descansando e comendo pizza quando acabei. O Escobar estava entrando pra última volta e, logo depois, finalizou numa boa...

Ok. Relato tudo isto, para que possam acompanhar o final deste email e melhor entender o belo email com o título "IRONMAN" que foi enviado pelo Escobar e que respondi com cópia para todos (está colado logo abaixo da minha assinatura).

Como podem notar, este não foi um "bom tempo", nem mesmo terei uma boa colocação. Foi, na verdade, meu pior tempo, dentre os 7 que já participei e finalizei, um a um.

E vou declarar: estou tão feliz quanto o campeão ou qualquer um outro que tenha conquistado sua medalha, pois tenho certeza de que ontem em uma coisa todos nós estivemos no mesmo nível: o da felicidade por vencer!!!

Ambição, força, perseverança, exemplos, disciplina, sorte, humildade, foco, amizades, saúde, energia e positivismo.

Gostaria que todos soubessem que este é o espírito e gás que devemos empreender no sentido da conquista de um objetivo pessoal. Seja no trabalho, em casa, na vida social, na balança, na saúde, em 5km ou num Ultraman (muito mais que um Ironman!)... não interessa... tenha a certeza de que a pessoa que não se encaixa neste ritmo e astral é, no mínimo boba, burra e engana a si mesma. Especialmente no esporte, façamos com que o mesmo seja para promover uma mudança pessoal para MELHOR.

Desistir de algo, somente por desistir ou por medo de não conseguir, ou pior ainda, por pressupor que ir mal vai "ficar feio" ou queimar o filme é, na boa, muito pequeno.

A verdade é que nossas conquistas nos deixam leves e fortes. Nos fazem crescer positivamente de alguma forma. Nos levam adiante!!!

Já notaram que este é o astral pós provas?!?

Felicidade, companheirismo, agradecimentos, fome de mais, trocas mútuas de significados por estar lá e fazer valer... etc, etc, etc... coisas boas e mais coisas boas... pensamentos bons e mais pensamentos bons...

Que bom seria se este clima pudesse fazer parte de nossas vidas cotidianas...

Quer saber?!? É possível sim. Que tal começarmos desde já?!?

Dizem que o tal do esporte (seja qual for) contribui muito para isto. Portanto, vamos nos mexer e fazer quem nos cerca sair da inércia...

Pegando um gancho do filme "Tropa de Elite II": O ESPORTE É FODA! E FOI FEITO PROS GRANDES...

Muitíssimo obrigado, de coração, a todos!!!

Quem venham os próximos desafios...

Bons treinos.

Grande abraço,


Robson Fernando Oliveira (Ironman '03 '04 '05 '07 '08 '10 '11 ...e... '12)




Nenhum comentário:

Postar um comentário